sexta-feira, 27 de maio de 2011

Luz que vem do Sol



“Hay cansancio pero podemos aguantar hasta el domingo”, falou um dos porta-vozes do 15-M, em uma das assembleias organizadas diariamente pelo movimento. “Más, más, más”, respondeu o público, manifestando a determinação de continuar lutando na Puerta del Sol.
Não estava em Madri quando os manifestantes tomaram a praça no dia 15 de maio. Cheguei de viagem na segunda passada e fui direto ao local para conferir o que estava acontecendo e, no dia seguinte, tive que me infiltrar novamente na mobilização para fazer cobertura para o El Mundo (fui fisgada pela correspondente da Globo News que também estava fazendo uma reportagem, veja neste vídeo).
É a primeira vez desde 2004 que os espanhóis se mobilizam dessa forma. O movimento, organizado pela plataforma Democracia Real Ya!,  foi tão bem articulado pelas redes sociais que a Puertal del Sol transformou-se num palco de protestos. As milhares de pessoas acampadas na praça estão recebendo apoio de várias cidades da Espanha e de outros países.
Os manifestantes se dizem apartidário e defensores de uma nova forma de fazer política. Estão organizados da seguinte forma: o núcleo é a Puerta del Sol. Lá, concentram-se as barracas dos acampados e as várias tendas: informações, enfermaria, biblioteca, arquivos, oficinas, meditação, entre outras.
Exercitam a cidadania, o saber ouvir, coletar e estruturar os anseios e as inquietudes da população. Apesar de a mobilização estar perdendo força numérica (justificada por ser dia de semana), seus representantes opinam que o movimento está se estabilizando, crescendo e amadurecendo.

“Não está dispersando. Pelo contrário, está estendendo”, defende uma das participantes. Segundo ela, o 15-M está em fase de expansão. A ideia é descentralizar, levar as pautas  até os bairros de Madri e outras cidades da Espanha e colher mais demandas para apresentá-las aos governos locais.
 Diante da ameaça policial, os indignados traçaram estratégias. “Se a polícia interferir, dê o braço ao seu colega mais próximo e sentamos no chão, sem enfrentamento. Não se esqueçam de deixar gravado no celular uma mensagem comunicando o ocorrido e envie a todos os seus contatos para que o mundo saiba o que está acontecendo aqui”, recordou um dos organizadores do 15-M.
Para levantar as propostas, foram criadas comissões e grupos de trabalho sobre diferentes temas que vão desde imigração, política, corrupção, passando por saúde e cultura. Os manifestantes pedem uma saída à crise econômica que já deixa mais de 50% dos jovens desempregados, além do fim do controle midiático, do salário vitalício de políticos, dos paraísos fiscais, da privatização da saúde e da mercantilização do ensino. E mais uma lista inacabável de exigências que refletem a insatisfação generalizada do povo espanhol.
Todos os dias esses grupos se reúnem em ruas próximas à Puerta del Sol para debater e levantar sugestões. As propostas de cada comissão são votadas no dia seguinte em assembleia geral. Participam jovens, intelectuais, professores, trabalhadores, desempregados, estudantes e aposentados. Homens de terno e mulheres sem calçado, cabelos brancos e jovens que tem toda uma vida pela frente, unidos pelo mesmo propósito: mudar.
O Sol virou a Ágora madrileña e as pessoas resistem ao calor de 30 graus e à falta de sombra na praça. Entre sombrinhas e esguichos de água, presenciei um debate sobre paraíso fiscal. Professores da principal universidade de Madrid, a Complutense, contribuíram com a discussão, ensinando e aprendendo com a “geração perdida”.
Já ouvi várias críticas em relação ao movimento. Que é abrangente demais, que não apresenta soluções. Que é um movimento inconstitucional, que começou na hora errada. Que os espanhóis são preguiçosos e reclamam de tudo. Que os jovens buscam apenas trabalho público e não são empreendedores o suficiente para criarem seus próprios negócios e impulsionarem a economia. Que existe manipulação das informações pelo partido de direita do país, o PP, que massacrou o PSOE (socialista) nas últimas eleições de 22 de maio, conquistando mais de 52% dos votos.
Além disso, proprietários de algumas lojas perto da Puerta del Sol reclamam da queda das vendas e da imundice da praça. “Esto está echo una mierda”, disse um deles. Outros pedem para “tirar esses hippies das ruas”. Muitos criticam que tem um monte de gente que está lá pelo efeito psicológico, sem saber o motivo, ou melhor, “porque não tem nada para fazer”, segundo a vendedora de uma loja, situada no furacão da revolta.
Tentam desprestigiar e deslegitimar um movimento marco na história da Espanha, que demonstra o despertar de uma juventude tachada de apática. Criticam também a falta de coerência. Tudo bem, coerência é o que muitos de nós buscamos. Mas como criar unidade e ter 100% de coerência em um movimento de massa que é heterogêneo por essência?
É claro que existirão falhas no discurso, lacunas em propostas. Os próprios manifestantes tentam, de alguma forma, se alinharem. Talvez não tenham uma linha específica porque a revolta parte de uma crítica generalizada ao sistema. Tentam estabelecer prioridades e tratar de temas urgentes. Contudo, sem marginalizar outras questões latentes na sociedade.
O movimento não vai gerar uma ruptura no sistema, como muitos manifestantes pretendem. Pode ainda não conseguir emplacar nenhuma das medidas propostas, não ter o impacto esperado e nem provocar mudanças profundas. Não deixa de ser, porém, uma luz em uma Espanha obscura, que quer sair do buraco.

Se a manifestação conseguir mudar o olhar de poucas pessoas, já valeu a pena. Sabemos que as mudanças começam em nós mesmos, percebendo nosso universo particular e suas implicações no coletivo. Tem gente que acha que os manifestantes são "irrealistas" demais. Eu já gosto de acreditar que tudo é possível. Afinal, como diz meu amigo Lucas Avelar, "o impossível é impossível". 

6 comentários:

Zoi di Gato disse...

Jardim, ta chamando muita atenção esse movimento na Espanha. Queria saber até que ponto está relacionado com outros, do Norte da África e do Oriente Médio.

Osmar Fraga disse...

Incrível os fatos que te tem ocorrido em função da edição desse blog!
E esse "sutaquim minerin" no GloboNews? :D
Parabéns, Carol!
Beijos
Osmar

Carol Jardim disse...

Convivendo com estrangeiros de todos os cantos do mundo e brasileiros de outros estados, achei que tinha perdido meu sotaque ou, pelo menos, suavizado. Mas parece que não, né, Osmar? rs. Também nem quero perder. E faço questão de soltar uns "uai sô". Acho que a relação do blog é outra. Os fatos seguem seu curso normal e meu blog entrou no meio do caminho, me proporcionando o que tem de melhor do jornalismo: o contato humano. Ouvir gente, sentir gente.

Carol Jardim disse...

Zoi di Gato, o movimento espanhol recebeu influências das ondas de protesto no mundo árabe, embora não tenha uma relação direta e os objetivos sejam diferentes. O povo vai à rua e inspira outros a se mobilizarem, a levantarem voz e a pedirem mudanças. Os árabes lutavam contra ditaduras e tiranos que estavam no poder há anos. Aqui, os protestos foram motivados, principalmente, pela crise econômica. Dentro desse pacote os espanhóis reclamam maior representação e participação política, uma democracia "mais real". Mas não objetivam cair com o governo do Zapatero, por exemplo. Os dois movimentos foram organizadas via redes sociais. E grande parte dos espanhóis manifestaram apoio à primavera árabe.

Zoi di Gato disse...

Obrigado pela explicação.

Sotaque é difícil de perder. Faz bem em manter o mineirês!

Wesley Gomes disse...

Oi Carol,

Estive na sexta feira na casa da Tia Vera e da Anna Amélia para conhecer o Bernardo, que aliás é lindo e muito esperto, e ela me contou que você está por aqui, na Espanha, desde o ano passado e, pelo conteúdo do blog, parece que está realmente curtindo seu "período de embarazo". Retornei hoje aqui para a Alemanha e tive a grata surpresa de encontrar temperaturas mais altas que no Brasil! Vai ficar por aqui durante o verão? Espero que a viajem esteja ocorrendo de acordo com suas expectativas, sem bem que, é comum desatarmos alguns nós, apenas para descobrirmos mais nós e, por vezes, os processos de desconstrução são mais interessantes que as próprias construções ou suas conclusões (aprendemos mais, talvez)!
Continue curtindo a Espanha como já vêm curtindo e que o fruto dos seus nove meses seja algo de bom que você carregue para a vida toda mas, se nem tanto, não se preocupe, pelo menos você vai poder olhar para traz e sentir que se divertiu pra caramba (o que é o mais importante)!!! =)

Küsse aus dem sonnigen Weinsberg!