terça-feira, 28 de junho de 2011

Mais um jardim no caminho


Luar na Lubre é um grupo de música celta da Galícia. Neste vídeo cantam "Chove en Santiago".  

Três blusas, duas calças, uma lanterna. Band-Aid, três meias, protetor solar, um chapéu. Agulha para furar bolha, cantil. Câmera fotográfica. Está faltando alguma coisa? Acho que não.

Mochila pronta. Sete quilos. Peso razoável. Só falta o cajado de peregrina. Amanhã embarco para a última aventura da minha viagem. Talvez, a mais esperada de todas desde que cheguei à Espanha: fazer o Caminho de Santiago.

Há muitos anos cultivo esse sonho, influenciado também pela minha tia Raquel, irmã do meu pai e uma das pessoas que mais amo nessa vida. Ela já percorreu três diferentes trechos do caminho. No primeiro, saiu da França e andou 800 quilômetros durante um mês.

No último, feito no ano passado, ela chamou o meu avô Adão e eles foram juntos, pai e filha. Agora é a vez da neta manter a tradição e deixar as pegadas de mais um Jardim nos campos verdes da Galícia celta.

Da capital espanhola irei até Sarria, um povoado no Norte da Espanha. É de lá que começo a caminhada de 113 quilômetros até Compostela. Não planejei a data de chegada. Mas estimo que farei em quatro ou cinco dias.

A data escolhida para fazer o caminho foi proposital. A poucos dias de voltar para o Brasil e de celebrar meu embarazo, pensei que não existiria melhor forma para encerrar este ciclo e “dar a luz”.

Alguém me acompanha?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Guerra, arte e memória

Em uma tarde de domingo, Manuel Yanez recordava sobre sua viuvez, um dos motivos pelo qual havia decidido transformar sua casa em pousada, erguida em um dos pontos mais nobres da cidade: em frente ao Palácio Real. Contava-me sua história de forma linear, exceto nas pausas em que dedicava seu olhar à sua esposa, emoldurada em um dos quadros da sala de estar que virou recepção.

Durante a nossa conversa, o espanhol que poderia ser meu avô, mas com espírito jovem e com pinta de galã, resgatou outra mulher de sua vida. Contou-me da época em que, ainda criança, acompanhava sua mãe até Cuatro Caminos – hoje, uma estação de metrô que fica perto da minha casa. Lá, buscavam comida em um dos quartéis instalados na cidade.

A Espanha estava em guerra, e Manuel me revelava suas lembranças de garoto como se toda sua vida tivesse como pano de fundo um conflito que deixou cicatrizes profundas, ainda em processo de cura no país.

A Guerra Civil Espanhola está representada no Guernica, a obra mais famosa do pintor espanhol Pablo Picasso e a principal atração do Museu Reina Sofia. Aquela que estudamos desde o colégio, que certamente mencionaremos para os nossos filhos, e que é alvo de muitos flashs. Sim, é permitido fotografar, respeitando alguns metros de distância.

O quadro representa um conflito entre nacionalistas e republicanos que começou em 1936, terminou em 1939, mas que continua gerando polêmica e influenciando vidas. Tanto é que, em 2005, partidários da extrema-direita picharam no muro do secretário do Partido Comunista da Espanha, Santiago Carillo, as seguintes frases: "Así empezó la guerra, y ganamos". "Carrilo, asesino, sabemos dónde vives". Devido ao seu impacto, a Guerra Civil Espanhola gerou cerca de 20 mil livros, volume literário equiparado ao da Segunda Guerra Mundial, e inspirou outras obras, como o Guernica.

O fascínio pela obra de Picasso – ou por qualquer grande obra – não se explica só pela estética. Por detrás das pinceladas cubistas de um dos principais pintores da Espanha tem todo um contexto que converte formas em memória, história e sensações. Em uma experiência que não se limita aos minutos em que se está frente a frente ao Guernica. Proporciona aquilo que talvez melhor defina a arte: a capacidade de ter extensão em nossas vidas, de transformar a nossa visão de mundo. 
E o quadro de Picasso muda. Tem força. É potente como o bombardeio na cidade de Guernica, que destruiu a população basca que residia ali. O massacre, resistido por Manuel e por muitos outros espanhóis, é imortalizado na obra do espanhol. Com traços que rompem com a estética do perfeito, Picasso desconfigura uma realidade já destroçada. Retrata uma Espanha em pedaços, fragmentada pelas divergências políticas e pela destruição do país. 
Digestão com café, muffin e jazz

Passada a Guerra, momento de reconstruir peça por peça. Todas as lembranças ficariam na  memória da sociedade espanhola ou comporiam grandes salas de museu. O Reina Sofia, um dos principais museus de Madri, dispõe de salas exclusivas para o Guernica. Exibem todos os esboços de Picasso que o levaram à confecção do quadro.

Além da obra-prima do pintor, o Reina Sofia abriga coleções de outros importantes artistas espanhóis, como Salvador Dalí e Miró. E de internacionais, representados por Georges Braque, Francis Bacon e muitos, muitos outros.

O museu cobre o final do século XIX até a atualidade. Está localizado em um ponto privilegiado da cidade, em frente à Atocha – principal estação de Madri –, e perto do Paseo del Prado, uma das avenidas mais bonitas da cidade, um museu a céu aberto.   

Depois da visita, não deixe de ir ao café-restaurante do Reina Sofia. Com decoração moderna, combinando com a arquitetura arrojada de uma das fachadas do museu, o espaço é uma ótima opção  para digerir o banquete artístico com um bom café, muffin e jazz.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Entre línguas e canções



Alô Brasil e Espanha. Antes de voltar a minha terra estou gravando vários programas especiais de músicas brasileiras que foram interpretadas em espanhol e vice-versa, que serão emitidos durante um mês na Rádio Exterior, da Rádio Nacional da Espanha. 

No programa "Entre línguas e canções" falo de músicos brasileiros que moram em Madri, como Leo Minax, Flavia Enne Braga, Fernando de La Rua, Fernanda Cabral e Pedro Moreno. Também abordo Clube da Esquina e sua segunda geração, com Rodrigo Borges e Gabriel Guedes – do bar Godofredo, em Santa Tereza, a “Liverpool dos mineiros”. Sem deixar de fora os mestres Chico, Caetano, Toquinho, Lenine... 

Dos espanhóis-latinos-caribenhos entram, além de outros, Ana Belén, Victor Manuel, Jorge Drexler, Pablo Milanés, Pedro Guerra, Isolda Carillo e Mercedes Sosa. E também o espanhol e músico Tomás Lopes-Perea Cruz que se apaixonou pelas composições brasileiras e criou o Festival Tensamba, promovido todos os anos na Espanha. Se tiver alguma sugestão de compositor que grava nos dois idiomas, compartilhe.

Assim que souber a data certa de emissão dos programas divulgo para você. Provavelmente será em julho ou agosto, ainda não fechei a data certa com a emissora. A frequência da Rádio no Brasil é 17.595 e existem outras para os demais países e continentes. A emissão é por onda curta então talvez seja mais fácil ouvir pelo site www.rtve.es. Basta clicar em Rádio, depois em Rádio Exterior e, finalmente, em emissão em português. Além de português, a Rádio Exterior é emitida em vários outros idiomas.

Enquanto isso, ouçam a versão de Aquarela, em espanhol. "De uma América a outra eu consigo passar num segundo". Hasta luego!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Nos olhos de cada um

Oito horas da manhã. Acabo de chegar ao jornal e me lembro que tenho que fazer um roteiro turístico para duas amigas que vou receber este domingo.

Aqui, compartilho um "plano" para conhecer a capital espanhola, tal como foi enviado para as também mineiras Cláudia e Ana. Um roteiro com muitas reticências, de uma cidade que, como qualquer outra, pode ser descoberta e redescoberta nos olhos de cada um. Como é Madri para você? 

Queridas Cláudia e Ana,
Fiz um roteiro rápido para vocês. Claro que faltam algumas coisas. Mas vamos completando quando vocês chegarem, ok? Não precisa segui-lo à risca. É bom se perder.

Bjos e boa viagem,

Carol       
O que não pode deixar de apreciar/observar/sentir
1)   Artistas de rua
2)   A magia da cidade
3)   A atmosfera latina
4)   A grosseria x simpatia dos espanhóis
5)   O ar imperial
6)   A eficiência do transporte público (melhor metrô da Europa)
7)   Uma cidade/país que está em crise, mas não se percebe, principalmente para quem vem de “países em desenvolvimento” , como a gente. O pobre daqui tem jaqueta, sapato e calça jeans. E a cidade continua fervendo, tudo cheio e com movimento.  
8)   Olhe para cima, para baixo, 360 graus (ver os prédios, as pessoas)
9)   Esqueça o mapa. Aproveite para conversar na rua. Pergunte.
10)   Sente no chão da praça. Deite nos jardins da cidade. Olhe para o céu. Aqui em Madri, está quase sempre azul.
11)   Repare o tanto de vovós nas ruas, um mais lindo que o outro.
12)   A mudança de estação, o comportamento das pessoas e o novo desenho da cidade
13)   O sol que se esconde só depois das 21h30
 Centro histórico
14)      Puerta del Sol
15)      Plaza Santa Anna
16)      Plaza Mayor
17)      Mercado San Miguel
18)      Ópera
19)      Plaza do Oriente
20)      Palácio Real
21)      Jardines de Sabatini
22)      Museu do Jamón
Principais museus
23)   Reina Sofia
24)   Prado
Outros passeios
25)   Parque Retiro (dentro tem o Palácio de Velázquez e o Palácio de Cristal. Também tem um lago, podemos passear de barco e fazer piquenique).
26)   Caminhar pela Gran Via
27)   Caminhar pela Calle de Alcalá
28)   Ir até a Plaza Cibeles, onde está o Banco da España.
29)   Ir ao Santiago Bernabeu (estádio do Real Madrid)
30)   Templo de Debod
Cafeterias
31)   Jardín Secreto (lindo, lindo, lindo)
32)   Café Oriente (amo)
33)   Café Libertad 8 (tem show ótimos)
34)   Café Central (jazz)
35)   San Ginés (famosa pelos churros com chocolate quente, o povo vai até after party)
Bairros famosos
36)   La Latina e Chueca (concentram vários bares)
37)   Lavapiés (bairro de imigrante, tem bar árabe, brasileiro, africano. É uma miscelânea)
38)   Malasaña (região que também concentra muitos bares)
Calle Serrano
39)   É a rua sofisticada de Madri, onde estão as principais marcas (Dior, Gucci, Chanel) – não tem nenhuma graça, mas muita gente visita.
Cidades perto de Madri que pode ir de trem e voltar no mesmo dia, todas maravilhosas
40)   Salamanca
41)   Segóvia
42)   Ávila
43)   Toledo
44)   El Escorial
Show flamenco
45)   Cardamomo (nunca fui, me indicaram)
46)   Outro dia fui em um bar com dança, perto da Plaza Santa Anna, mas esqueci o nome. Quando passearmos pelo centro passamos em frente para vocês conhecerem, vale?
Musicales
47)   Los miserables
Restaurantes y pastelerias
48)   Casa Julio em la Calle Madera
49)   Rincon de Jaen
50)   Pasteleria Mallorca
O que não pode deixar de comer
51)   Jamon Iberico
52)   Croquetas
53)   Tortilla
54)   Paella
55)  Tortilla....

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Luz que vem do Sol



“Hay cansancio pero podemos aguantar hasta el domingo”, falou um dos porta-vozes do 15-M, em uma das assembleias organizadas diariamente pelo movimento. “Más, más, más”, respondeu o público, manifestando a determinação de continuar lutando na Puerta del Sol.
Não estava em Madri quando os manifestantes tomaram a praça no dia 15 de maio. Cheguei de viagem na segunda passada e fui direto ao local para conferir o que estava acontecendo e, no dia seguinte, tive que me infiltrar novamente na mobilização para fazer cobertura para o El Mundo (fui fisgada pela correspondente da Globo News que também estava fazendo uma reportagem, veja neste vídeo).
É a primeira vez desde 2004 que os espanhóis se mobilizam dessa forma. O movimento, organizado pela plataforma Democracia Real Ya!,  foi tão bem articulado pelas redes sociais que a Puertal del Sol transformou-se num palco de protestos. As milhares de pessoas acampadas na praça estão recebendo apoio de várias cidades da Espanha e de outros países.
Os manifestantes se dizem apartidário e defensores de uma nova forma de fazer política. Estão organizados da seguinte forma: o núcleo é a Puerta del Sol. Lá, concentram-se as barracas dos acampados e as várias tendas: informações, enfermaria, biblioteca, arquivos, oficinas, meditação, entre outras.
Exercitam a cidadania, o saber ouvir, coletar e estruturar os anseios e as inquietudes da população. Apesar de a mobilização estar perdendo força numérica (justificada por ser dia de semana), seus representantes opinam que o movimento está se estabilizando, crescendo e amadurecendo.

“Não está dispersando. Pelo contrário, está estendendo”, defende uma das participantes. Segundo ela, o 15-M está em fase de expansão. A ideia é descentralizar, levar as pautas  até os bairros de Madri e outras cidades da Espanha e colher mais demandas para apresentá-las aos governos locais.
 Diante da ameaça policial, os indignados traçaram estratégias. “Se a polícia interferir, dê o braço ao seu colega mais próximo e sentamos no chão, sem enfrentamento. Não se esqueçam de deixar gravado no celular uma mensagem comunicando o ocorrido e envie a todos os seus contatos para que o mundo saiba o que está acontecendo aqui”, recordou um dos organizadores do 15-M.
Para levantar as propostas, foram criadas comissões e grupos de trabalho sobre diferentes temas que vão desde imigração, política, corrupção, passando por saúde e cultura. Os manifestantes pedem uma saída à crise econômica que já deixa mais de 50% dos jovens desempregados, além do fim do controle midiático, do salário vitalício de políticos, dos paraísos fiscais, da privatização da saúde e da mercantilização do ensino. E mais uma lista inacabável de exigências que refletem a insatisfação generalizada do povo espanhol.
Todos os dias esses grupos se reúnem em ruas próximas à Puerta del Sol para debater e levantar sugestões. As propostas de cada comissão são votadas no dia seguinte em assembleia geral. Participam jovens, intelectuais, professores, trabalhadores, desempregados, estudantes e aposentados. Homens de terno e mulheres sem calçado, cabelos brancos e jovens que tem toda uma vida pela frente, unidos pelo mesmo propósito: mudar.
O Sol virou a Ágora madrileña e as pessoas resistem ao calor de 30 graus e à falta de sombra na praça. Entre sombrinhas e esguichos de água, presenciei um debate sobre paraíso fiscal. Professores da principal universidade de Madrid, a Complutense, contribuíram com a discussão, ensinando e aprendendo com a “geração perdida”.
Já ouvi várias críticas em relação ao movimento. Que é abrangente demais, que não apresenta soluções. Que é um movimento inconstitucional, que começou na hora errada. Que os espanhóis são preguiçosos e reclamam de tudo. Que os jovens buscam apenas trabalho público e não são empreendedores o suficiente para criarem seus próprios negócios e impulsionarem a economia. Que existe manipulação das informações pelo partido de direita do país, o PP, que massacrou o PSOE (socialista) nas últimas eleições de 22 de maio, conquistando mais de 52% dos votos.
Além disso, proprietários de algumas lojas perto da Puerta del Sol reclamam da queda das vendas e da imundice da praça. “Esto está echo una mierda”, disse um deles. Outros pedem para “tirar esses hippies das ruas”. Muitos criticam que tem um monte de gente que está lá pelo efeito psicológico, sem saber o motivo, ou melhor, “porque não tem nada para fazer”, segundo a vendedora de uma loja, situada no furacão da revolta.
Tentam desprestigiar e deslegitimar um movimento marco na história da Espanha, que demonstra o despertar de uma juventude tachada de apática. Criticam também a falta de coerência. Tudo bem, coerência é o que muitos de nós buscamos. Mas como criar unidade e ter 100% de coerência em um movimento de massa que é heterogêneo por essência?
É claro que existirão falhas no discurso, lacunas em propostas. Os próprios manifestantes tentam, de alguma forma, se alinharem. Talvez não tenham uma linha específica porque a revolta parte de uma crítica generalizada ao sistema. Tentam estabelecer prioridades e tratar de temas urgentes. Contudo, sem marginalizar outras questões latentes na sociedade.
O movimento não vai gerar uma ruptura no sistema, como muitos manifestantes pretendem. Pode ainda não conseguir emplacar nenhuma das medidas propostas, não ter o impacto esperado e nem provocar mudanças profundas. Não deixa de ser, porém, uma luz em uma Espanha obscura, que quer sair do buraco.

Se a manifestação conseguir mudar o olhar de poucas pessoas, já valeu a pena. Sabemos que as mudanças começam em nós mesmos, percebendo nosso universo particular e suas implicações no coletivo. Tem gente que acha que os manifestantes são "irrealistas" demais. Eu já gosto de acreditar que tudo é possível. Afinal, como diz meu amigo Lucas Avelar, "o impossível é impossível". 

sábado, 7 de maio de 2011

Muito além da música


“Somewhere over the rainbow. Way up high”...ouvia-se do centro histórico de Madri. Comecei a seguir a música...."And the dreamns that you dreamend of. Once in a lullaby", se ouvia da Plaza Mayor. O som do violino atraía outros caminhantes que tomavam a mesma direção.

Começaram a se agrupar em volta de uma marionete. Um homem fazia com que sua boneca ganhasse vida, como se estivesse regendo um coro. Não falava. Não cantava. Algumas vezes desviava o olhar do instrumento para conferir a nossa reação. Respondíamos em moedas, suspiros e sorrisos. O dia estava ganho, where trouble melts like lemon drops”.

A poucos quarteirões dali, outro som despertava a curiosidade do público. Mas dessa vez, o brinquedo era um piano nada convencional. Os músicos retêm a atenção dos turistas que param na movimentada Calle Arenal para assistir ao espetáculo. Nunca viram nada parecido. O momento é único, quando “dreams really do come true”.


Na estação de metrô da Puerta del Sol, os garotos de Liverpool são personificados em duas vozes. Nem precisava dos quatro, a canção era Two of us. Em Nuevos Ministerios, um encontro diário com o compositor austríaco. Outro violinista. Sem a ajuda de uma boneca e com um repertório diferente do americano Harold Arlen , o músico fazia Mozart renascer. Mostrava que ópera pode ser apreciada não só nos grandes teatros de Viena. A orquestra era sob os trilhos. 

Desço alguns degraus e do outro lado da mesma estação um espetáculo completamente diferente. Do clássico ao contemporâneo. Uma bateria improvisada com panelas e baldes dá ritmo à vida subterrânea de Madri. Já quase na plataforma do metrô, o senegalês Diallo Tall Thierno transporta o som da África para a Europa. Entre o sopro e um batuque no seu balafón, me pergunta “que tal va la chica”, referindo-se à nossa presidente Dilma Rousseff.



Muda de cena, muda a música. Uma menina cantando em árabe, um mexicano na viola e um garoto fazendo a guitarra chorar integram a trilha sonora da cidade. Em frente ao Palácio Real, um homem e uma arpa elevam o público ao céu.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Bombom e Trombadinha


Caro leitor, apresento a você as minhas queridas amigas-irmãs-companheiras Paula Daibert (à dir.) e Natália San´t Anna. Sem elas, Madri não seria Madri. Essas duas dariam um filme. O gênero? Depende do dia. Mas posso dizer que na maioria das vezes elas seriam protagonistas da melhor comédia.

“Dá um pedacin desse chocolate aíiiii?”. Pronto, estava criado. O apelido da Paula – mineira de Juiz de Fora, mas com um jeito moleque de quem viveu quase sempre no Rio de Janeiro – virou Trombadinha. Prazer, Paula Daibert, a Trombadinha.

De raízes do morro ela não tem nada. Mas é de lá que vem algumas de suas inspirações. “Fé em Deus! DJ!”, escrevia em uma mensagem, para anunciar que estava escutando a música Rap das Armas. Não tenho a menor ideia do que ela estava aprontando em Doha – cidade onde estava morando –, mas nem precisa mirabolar muito.

Ela é daquelas pessoas que se diverte fácil e faz todo mundo rir. É bem possível que estava dançando em casa sozinha ao som de “paparapaparapapara clack bum”, um funk que chegou à Espanha e em outros lugares do mundo, mas quase ninguém sabe que veio do Brasil.

Com a Paula não tem meio termo. Ela vive à flor da pele. Ou vai ou racha. Na mesma potência em que se diverte, vem a “bad”, como ela gosta de dizer. “Tenho m-i-l-h-õ-es de coisas para fazer”. “É m-u-i-t-a coisa”. “Agora não posso”. Quantas vezes ouvi isso aqui. E entre as milhões de tarefas ela não pode abdicar, claro, de sua soneca sagrada. Alguém cochila de nove às dez da noite? A Paula Daibert cochila.

O jeito malandro da nossa Trombadinha de primeira é logo convertido em outra pose. A palavra agora é seriedade e compromisso. A trilha, Regina Spektor. Com seus óculos vermelhos – parte de seu DNA –, ela assume seu sobrenome de peso. A Daibert entrevista Luiz Inácio Lula da Silva e recebe até elogios do nosso ex-presidente.

Com apenas 25 anos, na inércia de uma vida louca que vem levando não sei exatamente desde quando – antes da Espanha, ela já morou nos Estados Unidos e na Suécia –, a nossa Paula, excelente jornalista, foi parar no Qatar. Durante três meses trabalhou na Al Jazeera, como estágio obrigatório do mestrado em Estudos Árabes e Islâmicos que está cursando desde outubro passado, quando chegamos a Madri.

Mas nos conhecemos antes, no consulado da Espanha no Rio, quando fui solicitar o visto. Trocamos e-mail, ela chegou à Espanha uma semana depois de mim, não tinha onde ficar e mudou-se para a minha casa. Foi aí que tudo começou. De conhecidas passamos a amigas e, depois, a irmãs.

A empatia não foi à primeira vista. Melhor que isso, foi construída e fortalecida por uma convivência que permitiu que nos conhecêssemos mais profundamente e nos apaixonássemos pelo que realmente somos e não por uma imagem formada por poucos encontros, às vezes distorcida.
 
Criamos uma relação de cumplicidade total. Na música e na dança, na madrugada e nos cafés da manhã, na diversão e no hospital, nas revoltas e nas brincadeiras, nas viagens e nos pés no chão. E a pausa. Paula Daibert vai para o deserto e deixa um vácuo na nossa casa.

Começa meu período nerd. Saí da vida a mil por hora que levava com a Trombadinha e pude me concentrar mais no mestrado. Em partes. Aí entra o Bombom na história, a Natália San´t Anna. Apropriei-me do apelido que uma espanhola deu a ela. “Bombonzito”, disse a moça à Natália. Essa brasileira de cor de chocolate é um doce.

Com o abandono da Daibert e o trio desfalcado, eu e a Bombom formamos uma dupla imbatível.  Nunca vi tanta energia em uma pessoa só. Quem tem muita energia tem que dissipá-la, de alguma forma. E a dela é liberada em sorrisos. Bombom pode passar trinta minutos dando gargalhadas sem parar e sem nenhum motivo especial. Seu amigo colombiano Jairo que o diga. Encontrou-a no metrô em um desses momentos Nat em transe e não entendeu nada.

E nem precisa entender. Assim como a Paula Daibert, que conquista novos fãs em todo lugar que passa, a Nat é vista com inquestionável admiração. Todo mundo gosta dela e ela gosta de todo mundo. Também, como não se encantar por uma pessoa que transmite a alegria em abraço, beijo, carinho e conversa? A Nat é de Guaratinguetá (SP), mas nasceu para o mundo. Não foi à toa que escolheu se formar em Relações Internacionais.

Em Madri, optou pelo caminho da sustentabilidade e foi aprovada pela Fundación Carolina para fazer o mestrado em Responsabilidade Social e Desenvolvimento Sustentável. No entanto, a diplomacia continuou sendo exercida com paixão. Ela foi uma das entrevistadas em um documentário espanhol sobre samba e deixou as cinegrafistas de queixo caído com tanta demonstração de orgulho à pátria. “O samba vem de dentro para fora, é democrático. Todos podem fazer. Tem que sentir”, comentava, revelando seu caso de amor com o Brasil.

O mesmo apreço que tem pelo samba ela também tem pelo carnaval. A Nat é carnaval fora de época, é festa todos os dias. É cor. Vê cor. Em uma de aulas do mestrado seu professor perguntou para a turma qual era o ecossistema que representava cada um. A resposta dela, a mais linda de todas: “Arco-íris”, disse.

E foi essa sintonia colorida da vida que colocou nós três no mesmo caminho. Mistura Minas-Rio-São Paulo-e-agora-Madri que transformou amizade em família, diferença em soma, meses em anos, experiências em aprendizado e fatos em histórias inesquecíveis. Três pessoas completamente diferentes, unidas por tudo aquilo que não nos assemelha, mas nos completa, na doçura e na molecagem.