domingo, 27 de fevereiro de 2011

Descubra Segóvia

A 87 quilômetros de Madri está Segóvia, uma joia rara da Espanha. Considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é um destino imperdível. Não só pelo aqueduto romano de mais de dois mil anos, pelo Castelo de Alcázar no alto da montanha com vista para os campos de Castilla y León e pela charmosa Plaza Mayor. Mas também, pela interação do homem com a sua própria obra, em uma tarde de sábado em que o inverno nos brindou com um céu limpo e rastros de neve no topo da colina. Motivos de sobra para dedicar horas ou dias na Cidade Vitoriosa, segundo o alfabeto celta.

Embarque nessa viagem
A melhor forma de ir a Segóvia é de trem, que sai da estação de Chamartín, em Madri, e leva 30 minutos. De ônibus, saindo da Estação Príncipe Pio, o percurso dura em torno de uma hora e meia.

Achoooouuuuuuuuu

Te peguei

Papi, deja de hablar por el móvil, nos vamos a caer

Como sería la vida aqui cuando Segóvia era una de las ciudades más ilustres en toda Península Ibérica?

Dos celtas, mouros e visigodos ao homem moderno

La Miss Tigreza de Segóvia

Emoção de um arquiteto ao ver uma obra de dois mil anos perfeitamente conservada

Castillo del Alcázar, construído pelos árabes e conquistado pelas tropas cristãs no século XI, foi um dos palácios favoritos do Rei Alfonso VI e de turistas que se perdem na fortaleza.

  Assim, inteiro, é servido o cochinillo asado, um dos pratos mais famosos da cidade. Como não tinha uma foto do porquinho, baixei a imagem do site do Mesón de Cándido, um dos restaurantes mais tradicionais de Segóvia. A foto é do Carles Allende.
 
Chico, a la derecha de la foto: Será que encontraré un amor así cuando crezca?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A um pé da primavera


“Você já viu um pé aqui na Espanha?”, perguntou-me Lele, mineiro que conheci aqui em Madri e virou amigo de aventuras, saídas, desabafos e viagens sem sair do lugar. O Fernando Silveira – só muito tempo depois que fiquei sabendo que seu nome não era Leandro ou Leonardo –, é daquelas pessoas que roubam gargalhadas até de quem não domina o português.

Mas, nesse dia, quando Lele refletia sobre a ausência de pé no inverno do Hemisfério Norte, não estava de brincadeira. Referia-se ao frio de Madri – que nos impõe cobrir dos pés à cabeça – com um ar de saudosismo do calor brasileiro e com cara de quem estava morrendo de vontade de curtir uma praia, mesmo que a nossa belo-horizontina seja de um mar de botecos e não de areia.

Nunca tinha parado para pensar nisso, mas, realmente, faz quatro meses que não vejo um pé. O frio deixa sandálias e chinelos empoeirando no armário. Uma meia-fina em Madri é tão sensual quanto um decote, costas de fora ou mini-saia no Brasil. Geralmente, as pernas estão vestidas de meias grossas, não deixando um milímetro de pele à mostra. Quando sobra, as mulheres que se cuidem. Os olhares devoram as coxas expostas.

Este ano, o inverno está mais ameno. Desde que começou, em 21 de dezembro, foram raras as vezes que os termômetros registraram temperaturas abaixo de zero. Mas, mesmo assim, é frio suficiente para que a rua seja pintada de braços cruzados, caras franzidas, mãos no bolso e passos acelerados.

Todo mundo tem pressa. A baixa temperatura é vista no comportamento das pessoas. Não é preciso estar na rua para saber o que frio está pegando. Da janela da minha casa se vê uma mudança de atitude que denuncia o desconforto do ar gelado.

Nas caras tampadas sobram olhos, nariz e boca. As pessoas andam com o rosto inclinado para baixo. No meio do caminho, procuram um lugar fechado. Pulam de uma cafeteria a outra e, se não há abrigo, desviam das sombras das árvores.

Quando o céu está azul, tudo fica mais fácil. Dá até para arriscar tirar o sapato, a meia. Mas poucos se atrevem. A próxima nuvem está a poucos centímetros do sol, e o pé, a semanas de aparecer, quando a primavera chegar.

Cadê o pé que estava aqui?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Terra onde o sol se põe – Parte 2

Praça Jemaa El Fna, no coração de Marrakech, no Marrocos

O sol dá sinais de que quer se esconder. Os tambores dão ritmo ao entardecer de Marrakech. Estou na Medina, o pulmão da cidade. Enquanto o sol se põe, a praça Jemaa El Fna ganha vida própria. Personalidade tão forte que foi declarada patrimônio da humanidade pela Unesco.

No bum-bum-bum da batucada entram as flautas. As najas desafiam seus encantadores, e os macacos tentam livrar-se da coleira que os prendem a seus domadores. Um marroquino desliza o arco no violino. A falta de habilidade no instrumento desafina ainda mais uma orquestra que já não tem harmonia.

O público aplaude enrolando as serpentes no pescoço e colocando o mamífero nos ombros. Em um clique, tem a foto que exibirá para família, amigos e colegas com cara de quem quis dizer: não gosto só de Torre Eiffel, também me interesso por lugares exóticos.

E o coro da praça continua. “Italiana? Francesa? Espanhola?”. É a vez das tatuadoras, que abordam os turistas e tentam vender por 10 dirhans – R$ 2,5 – desenhos de rena. Atrás delas, erguem-se barracas e mais barracas de comida. Cuscuz, sopa de grão-de-bico e tajine entram na melodia. A poucos metros dali, uma feira com todo tipo de mercadoria: chaleiras, tâmaras, pistaches, tapetes e sapatos.  

Um enunciado e a Medina muda de compasso. A voz do muezim – amplificada pelos alto-falantes – convoca os marroquinos para o salât (oração), em um dos cinco chamados do dia. Ao ouvirem "Alá é o maior", os muçulmanos deslocam-se à mesquita mais próxima ou à principal da cidade, a Koutoubia. Terminada a reza, play em Marrakesh: carruagens, buzinas de motocicletas, danças acrobáticas e som na praça.

A noite vai chegando, a praça vai acalmando e a montagem é desfeita. No dia seguinte, o espetáculo se repete. Único no mundo árabe, esse palco de tradições revela a alma marroquina. Quando o sol se põe, os mesmos atores entram em cena. Retém a atenção de milhares de viajantes que vivem um dos dias mais intensos de suas vidas.



Chamado para a oração na praça

Labirinto de mistérios

Madersa Ben Youssef

Caminhar pela Medina – centro histórico de Marrakech, rodeado por uma muralha – é desvendar mistérios mil, brincar de se perder e surpreender. Adentrando nos souks (mercados tipicamente árabes) se descobre uns dos principais pontos turísticos da cidade como, por exemplo, a Madersa Ben Youssef.

Situada no meio da Medina, é a maior escola corânica do Magreb, região que vai do Marrocos ao oeste da Líbia. Ao lado está o Museu de Marrakech. Bem perto dali, o Palácio Dar Si-Said (arquitetura árabe-andaluz).

Mais uns passos e dois palácios, o Bahia e o El Badil. O primeiro, construído no final do século 19, chama a atenção pelos salões e jardins ornamentados por fontes e laranjeiras. O El-Badi é uma ruína do século 16, considerada maravilha do mundo muçulmano.

Palácio El-Badi


Entre tendas, becos e ruelas – que parecem levar a lugar nenhum –, surgem os riads. Essas casas tradicionais foram transformadas em hotéis, com jardins no interior e decoração tipicamente marroquina. Para quem quer ficar na Medina, é a melhor opção de estadia, variando de instalações simples a cinco estrelas. A diária pode custar de 10 a 200 euros.

Riad 5 estrelas, na Medina

O centro histórico nada tem a ver com os palácios ou riads. Do lado de fora, logo ali depois da porta de entrada das mansões árabes, o cenário é dominado por homens e principalmente mulheres, muitas delas com filhos, largados no chão. Portam uma lata a espera de um trocado de pessoas como eu, que pagaram 120 euros para viajar de Madri a Marrakech, ou de uma moça de salto alto, casaco de pele de onça e bolsa Gucci que cruza uma fileira de sete cegos sentados em um banco com a mesma lata nas mãos.

Essa é a fascinante Marrakech, que seduz os viajantes no norte da África. Aos pés da cordilheira do Alto Atlas, a cidade é a mais famosa do Marrocos, que em berbere significa "terra onde o sol se põe". É o sonho dos ocidentais pelo Oriente e recebe oito milhões de visitantes por ano, num país em que o turismo é o setor mais representativo da economia – responsável por mais da metade do PIB.

Do outro lado do muro

Resort nos Palmerais (oásis de Marrakech)

Uma muralha separa a Medina da parte moderna da cidade, chamada Gueliz. Avenidas largas são decoradas por palmeiras e laranjeiras. Por todos os lados, hotéis que parecem palácios, restaurantes luxuosos.

O local é um reduto de celebridades. Nicolas Sarkozy, presidente da França, esteve em Marrakech para o ano novo, em uma das muitas visitas a sua ex-colônia. Ele ficou hospedado no La Mamounia, o grande hotel da cidade. Quatro funcionários com roupa de sultão abrem as portas que dão acesso ao hall. Um lustre de cristal ilumina uma estátua de um dromedário, com uma lança e um leopardo.

No corredor que leva aos jardins e restaurantes – tem italiano, francês e marroquino –, lojas da Dior, Chanel e outras vitrines com vestidos de baile, ternos, relógios e joias. No bar do hotel, decorado com quadros de alguns astros do jazz e poltronas de veludo, um americano de São Francisco toca piano e diz que a escolha de ser músico deveu-se ao nosso Tom Jobim.

A new city hospeda – além de resorts, oásis (os Palmeirais) e campos de golf – o Jardim Majorelle. Considerado um dos lugares mais charmosos da cidade, o local foi desenhado pelo pintor modernista francês Jacques Majorelle, que se mudou para Marrakech na década de 1920. Depois foi comprado pelo estilista Yves Saint Laurent, morto em junho de 2008.

Jardim Majorelle

Marrakech também oferece passeios por parques e áreas verdes. Um deles é o Jardim Menara. O mais popular – esse dentro da Medina – é o parque no entorno da Grande Mesquita, onde as mulheres marroquinas costumam se encontrar.

Jardim Menara

Cinco sentidos

Tajine, prato típico marroquino

Viagens como essa exploram todos os nossos sentidos. Marrakech, conhecida como a cidade vermelha pelo pigmento natural usado nas construções, possui tantas outras cores que cega.

As ruas e becos da Medina são tão barulhentas que chegam a ser ensurdecedores. E a essência da cidade varia do esgoto aos pedaços de filé crus pendurados ao ar livre, das ruelas claustrofóbicas aos famosos perfumes árabes.

Na segunda maior cidade do país, com 1 milhão de habitantes, é difícil passar despercebido. Sempre vai ter alguém oferecendo para te levar de táxi, de carruagem, ir ao spa, beber chá ou comprar hashish.

Quando se entra em alguma das tendas dos souks, os vendedores logo te convidam para sentar e insistem para que você veja e toque as mercadorias “sem compromisso”. É um teste à nossa habilidade de negociar. Geralmente, se consegue baixar o preço da mercadoria em até um terço do valor inicial.

Somos disputados por todos os marroquinos para comprar uma bolsa, um par de sandálias, bules, pratos e comer no mercado.

Mercado árabe, na Medina

É tanta gente na Medina que a rua vira a dança do desvio. Requebra para lá, rebola para cá para não se esbarrar em motos, bicicletas, charretes, carros, pessoas que andam aceleradas e aos muitos gatos que caminham preguiçosos pela cidade. Até você dar de cara com um animal 20 vezes maior que o felino e decidir, por fim, dar um descanso às pernas.

Eu trombei em um cavalo. Não, ele trombou em mim. Estava de costas, parada, quando olhei para trás e tinha uma boca enorme. O cocheiro deu três pontapés na traseira do bicho, ele continuou andando e o meu braço, todo babado.

Típico de um país de terceiro mundo, o trânsito é caótico. Ninguém entende como a falta de sinalização não gera acidentes. A lógica é não ter lógica. Na mesma rua um carro vira à direita, outro à esquerda, um terceiro faz um retorno proibido, motos costuram o trânsito e pedestres atravessam em faixas invisíveis.

A viagem ao Marrocos me deixou mais“embarazada” que quando cheguei em Madri. Depois da cidade onde o sol se põe, o destino foi realizar outro sonho: caminhar pelo maior deserto quente do mundo.

No Saara
Artesanato no Alto Altas, a caminho do deserto

“Aqui não são três estrelas, são milhões de estrelas”, disse o marroquino que nos guiou até o acampamento no Saara, onde dormi uma noite na companhia de um céu iluminado, para vê-lo ainda mais reluzente ao nascer do sol.

Saí de Marrakech às 7h, acompanhada por um grupo de turcos, marroquinos, italianos, franceses e brasileiros. Subimos a cordilheira do Alto Atlas e atravessamos vilas mais parecidas com ruínas. Na beira da estrada havia homens jogando baralho, mulheres de burca com cestos na cabeça e crianças batendo bola ou entrando em salas de aula-escombros.

Depois de oito horas de viagem, chegamos a Zagora, cidade localizada na porta de entrada para o deserto do Saara e, por isso, abriga uma rede de hotéis de luxo que não combina com o visual a poucos metros dali.

Montamos nos dromedários à noite e cavalgamos por duas horas no deserto até o acampamento. Sopa, tajine e marroquinos curiosos nos esperavam para o jantar. Dois garotos, enquanto arrumavam a ceia, perguntavam-me de onde era, tentaram falar Belo Horizonte da maneira correta e me fizeram repetir um monte de palavras árabes até que eu acertasse o sotaque. Riam de mim como se eu fosse uma criança aprendendo o alfabeto.

De dromedário para o acampamento

Depois da comilança, foi a vez dos meninos do deserto nos ensinarem. Reunimo-nos em volta de uma fogueira para dançar e ouvir música berbere. Depois que o fogo apagou voltamos para a barraca, onde passamos uma noite insone. Três meias, duas calças, quatro blusas, casaco, luva e dois cobertores não foram suficientes para suportar o frio.

Música berbere no Saara

Às 7h da manhã acordamos para ver o sol nascer. Quem esperava dunas enormes, decepcionou-se. Estávamos no início do deserto e a paisagem não era de filme de faroeste. No entanto, a sensação de estar ali compensava qualquer imagem que tenhamos projetado em nossas mentes.

Amanhecendo

Na volta passamos por Quarzazate, onde está a Kasbah, centro cinematográfico do Marrocos, que recebeu gravações como Babel, Gladiador e Asterix. 

Quarzazate-Kasbah

Para ficar na memória

Como em todas as viagens, estava com a minha câmera como se fosse mais um membro do meu corpo, atenta aos “momentos decisivos” e pronta para disparar. O cenário é um convite para fotógrafos profissionais, amadores e aprendizes.

Caminhando pela cidade comecei a entender melhor o que meu professor do mestrado dizia sobre a importância dos olhos e do elemento humano nas fotografias; algo que ele critica na obra de Sebastião Salgado – pela falta de protagonismo –, e que exalta o trabalho de Cartier Bresson.

Eu tinha todos os elementos. O olhar e a imagem em todas as suas revelações: estética, pessoas, paisagem, a fotografia como denúncia. Minha intenção era fazer um ensaio fotográfico das mulheres marroquinas. Porém, não consegui nada além de fotos genéricas.

Alguns episódios fizeram com que eu não me sentisse à vontade para dar início ao registro. Um deles foi quando pedi permissão ao marido de uma mulher para fazer o ensaio, ele disse que a perguntaria, mas que provavelmente não aceitaria porque fere a religião islâmica.

Senti-me uma turista a mais, querendo registrar algo que não me pertence. Larguei o ensaio pra lá e preferi fazer da minha experiência um aprendizado que não dependesse de imagens revelando quem o ou quê não quer ser revelado.  

Nós, mulheres

Marroquinas em frente à Koutoubia

I don´t drink, I don´t use drugs, I just fuck my wife”, comentou o taxista que me levou do aeroporto ao hotel em Marrakech. As boas vindas do marroquino confirmou o que eu já esperava, que a minha primeira imersão na cultura muçulmana não seria fácil, mesmo considerando que a cidade é uma das mais modernas do mundo árabe e que as palavras do motorista surpreenderia poucas pessoas do lado de cá, no Ocidente.

As marroquinas estão cada vez mais presentes nos negócios, nos campos social, cultural e político. Os avanços, no entanto, são tímidos, amarrados na cultura do patriarcado. Foi somente em 2004 que o Marrocos alterou seu código civil, o que significou um importante passo para as mulheres, principalmente quando se leva em consideração que outros países muçulmanos como Argélia e Jordânia ainda não fizeram reforma semelhante por temer uma reação de fundamentalistas islâmicos. Até então, a população vivia sob as diretrizes de uma lei religiosa que determinava direitos e obrigações distintas para homens e mulheres.

Com o novo código, também chamado de Moudawana, as mulheres conquistaram direitos como a responsabilidade conjunta da família, a não-obrigatoriedade de um tutor para casar e o fim do voto de obediência ao marido. Além disso, aumentou de 15 para 18 anos a idade mínima para a mulher se casar e permitiu que a esposa possa pedir divórcio, recurso anteriormente só autorizado ao homem. Quanto à poligamia, a lei apenas a dificulta, estabelecendo o limite de mulheres que um homem pode ter: até quatro esposas, se tiver condições de sustentá-las e a seus filhos igualmente.

Um dos problemas é que nem sempre a lei é cumprida. Em entrevista ao Opera Mundi, Alicia del Olmo, árabe e especialista em questão de gênero, diz que considera normal que as mudanças sejam lentas num país em que 60% da população feminina é analfabeta, mas acredita que é preciso mudar a mentalidade dos juízes que ainda não conhecem bem a lei. Muitas vezes continuam aplicando-a com os princípios anteriores, autorizando casamentos - ou a compra de passe - de meninas de 12 e 13 anos.  

Para além das questões legais, a distância entre homens e mulheres é percebida no dia a dia de Marrakech, não só no tribunal. A origem da ideia de superioridade masculina, que vem de interpretações equivocadas dos fundamentos do Alcorão por parte de homens que exerceram o poder e ditaram as regras na cultura muçulmana, é encarnada no caminhar, no parar, na conversa e na forma de olhar de algumas mulheres.

Discretas e silenciosas, muitas delas poderiam passar batido na confusão de Marrakech. Mas no âmbito privado, mostram-se presentes, demonstram doçura e gentileza, como as duas camareiras do hotel que me trataram como mãe. Ao me verem com cara de "preciso de ajuda", mediram minha temperatura e ficaram no quarto comigo, tentando um diálogo em árabe que virou um monólogo – elas pareciam não se importar com o meu silêncio.

É difícil ver as mulheres com uma burca que as cobre dos pés à cabeça e não sentir, no mínimo, estranhamento. Assim como muitas delas poderiam e devem achar esquisito ver as brasileiras de biquíni em espaço público. A burca não é um item obrigatório. Mas é tão arraigada na cultura muçulmana que muitas mulheres usam por opção. Passam horas escolhendo a cor e a estampa mais bonita dos panos que cobrem um corpo que as pertence, mesmo vendo clips nacionais que mostram as próprias marroquinas dançando com mais sensualidade que a Beyoncé.

Foi exatamente em pontos como esse que a embaixadora do Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, tocou em uma entrevista publicada em um portal espanhol. Segundo ela, a imagem que os meios de comunicação social fazem da mulher árabe e da mulher muçulmana é sempre negativa: “a mulher é apresentada como inferior, praticamente sem direitos, mas com um monte de obrigações, especialmente no que diz respeito ao seu modo de vestir e ao seu papel na sociedade”, disse. 

"Sabemos que muitas destas notícias não correspondem à realidade vivida nos países árabes, mas que se referem somente a grupos fundamentalistas". Ela aponta como um dos problemas o fato de não nos conhecermos mutuamente.

E ela tem razão. A cada viagem me convenço mais de que escrever sobre outra cultura, com distanciamento necessário para não cair em clichês, é uma tarefa árdua e atrevida. Não tenho dúvida de que muitos marroquinos não ousariam pronunciar as mesmas palavras que as do taxista e que muitas mulheres se comportam de maneira distintas em outros ambientes. Assim são os seres-humanos-sociais-livres, que tem a cultura como um instrumento definidor de costumes e comportamentos, mas que não resume - ainda bem - a individualidade de ninguém.

Não tem como mergulhar nas profundezas de um país ficando horas, meses. Não conheci a cultura marroquina, conheci parte da cultura marroquina. E por mais que tente me afastar de uma visão ocidental míope, carrego uma herança cultural que define o meu olhar sobre as coisas. Olhar de alguém que espera o dia em que a mulher deixe de ser a comédia sem graça de piadas machistas onde o sol nasce e onde o sol se põe.

Nascer do sol no Saara

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tempo de mudanças


* Estava no Jardín Secreto, um bar-cafeteria mágico de Madri, quando vi essa escada inspiradora. No caminho que nos leva do amor à tolerância, degraus que traduzem a essência da vida.

“Soy padre de dos hijos y llevo dos años sin empleo. No estoy aquí para pedir dinero para comprar alcohol o droga, sino para poner comida en la mesa. Perdón por las molestias caballeros”. O pedido veio de dentro do metrô, de um senhor que parecia já ter alcançado seus 60 anos.

Em outros momentos, presenciei cena semelhante aqui em Madri. Em todos eles se via homens bem vestidos, com calça jeans, casaco e sapatos, bem diferente dos pedintes de rua do Brasil. 

O incômodo que o homem causou em alguns “cavalheiros” que também dividiam os assentos no transporte é reflexo da crise econômica espanhola. Segundo dados do Instituto Nacional de Estadística (INE), a taxa de desemprego é a mais alta desde 1997, atingindo 4,6 milhões de pessoas – 19,8% da população.

Em queda livre também está o Ibex-35, o principal índice da bolsa de valores de Madri. Os investidores cruzam os dedos enquanto a bolsa cai a  uma velocidade que os rendimentos do país não acompanham.

A Espanha tenta fugir de um possível resgate econômico, como aconteceu com a Grécia e depois com a Irlanda. Já aumentaram, por exemplo, a idade mínima para pedir a aposentadoria de 65 para 67 anos. E a União Européia (EU) pressiona para que o país tome mais medidas para controlar as suas finanças. O governo corre contra o relógio discutindo reformas sociais, no sistema de pensões e laboral, mas a população parece descrente.

De acordo com o cientista político Fernando Vallespín, pela primeira vez na história da Europa, desde a Revolução Industrial, os filhos viverão em piores condições que seus pais. Entre os jovens de até 25 anos, a taxa de desemprego chega a 43%. Os europeus temem. Não sabem até quando seus países serão competitivos e se alguns deles voltarão a crescer, têm dúvidas se o modelo é sustentável e se terão seus direitos sociais garantidos.

O cenário tem levantado algumas questões que evidenciam uma crise generalizada. Enquanto parte da Europa passa a duvidar do êxito da social-democracia – democracia não é sinônimo de progresso econômico, mas ainda assim acredito que seja o meio mais legítimo para que as sociedades que pretendem ser avançadas se desenvolvam –, os árabes vão para a rua dando início a uma onda de protestos. Em manifestações que começaram na Tunísia, chegaram no Egito e ameaçam países como o Marrocos, exigem a demissão de ditadores que estão no poder há mais de três décadas e o direito de eleger seus representantes.

Vemos, em pleno século XXI, sistemas políticos e econômicos sucumbirem. Não deveríamos ter que passar por crises como essa para nós e nossos representantes repensarem as nossas escolhas.


Quem produziu essa foto foi o Fernando Silveira, grande amigo mineiro, que está fazendo doutorado em Madri. A imagem foi tirada na última quarta-feira em uma manifestação em apoio aos tunisianos e egípcios, na Porta do Sol. Obrigada, Lele.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Quem quer coxinha?



Outro dia estava lendo o feed de notícias do facebook e uma delas me chamou a atenção. Dizia assim: “não sabia que ficaria tão feliz em comer uma coxinha”. A autora da frase, a Maria Fernanda, é uma brasileira que mora em Madri há quase dois anos. Dei total razão a ela e minha boca encheu de água.

Ah se eu pudesse dar uma garfada no angu da minha avó, na feijoada de domingo, no bolo de brigadeiro da Edna e uma colherada em um caldo de mandioca; nesse frio então, cairia muito bem.

É claro que estando em um lugar diferente, deve-se experimentar a gastronomia local. Já já prometo postar um texto sobre o que há de melhor na comida espanhola. Mas, de vez em quando, não tem como resistir. E aqui existem lugares específicos para os brasileiros que querem matar a saudade.

Um deles é o Trigo de Oro, pastelaria e cafeteria da Kênia, a mulher que me hospedou em sua casa no meu primeiro mês de Madri. O endereço da loja combina muito bem com o que se propõe: fica na Avenida Paseo de las Delicias.

Tem de tudo: pastel, brigadeiro, pão de queijo, suspiro, salgadinhos, bombom Garoto, guaraná Antártica e brasileiros apaixonados. Sempre que vou lá esbarro em um namorando as coxinhas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Víctima de la censura cubana


*Caro leitor, escrevi o texto abaixo para o meu mestrado, por isso está em espanhol.

Siete años y cuatro meses. Ese fue el tiempo que Ricardo González permaneció en la cárcel en Cuba por ejercer el periodismo en un país donde la censura a los medios de comunicación es una de sus principales marcas. Desde que llegó a España, en julio de 2010, González respira más tranquilo y puede retomar el oficio, pero de esta vez, contando su propia historia. El jueves pasado fue el turno de los alumnos del máster en Periodismo EL MUNDO de escuchar las experiencias del disidente político y corresponsal de Reporteros sin Fronteras, en una conferencia realizada en la sede de la Unidad Editorial.

González logró la libertad el 12 de julio de 2010. El día siguiente embarcó con su familia y siete prisioneros políticos cubanos más a España. Entre ellos, cinco periodistas. Todos cumpliendo la condición impuesta: “No quería salir de Cuba, pero fue la única forma para librarme del cárcel. El exilio a cambio de la libertad”, dijo.

Nacido en La Habana, González era presidente de la sociedad Manuel Márquez Sterling, una organización de periodistas clandestina, y dirigía la publicación De Cuba, la primera revista independiente publicada después de la instauración del régimen castrista. “Todo consistía en un teléfono, un bolígrafo y un papel. Hacíamos periodismo bajo a cualquier circunstancia. Siempre se puede informar, pase lo que pase, ocurra lo que ocurra. Los medios materiales no son lo más importante para  ejercer el oficio”, defendió.

El periodista fue arrestado en marzo de 2003, junto a 27 colegas. Con 60 años de edad, casado y padre de dos hijos, fue condenado a cadena perpetua por actos contra la independencia y la integridad territorial del Estado. Él recuerda con mucha precisión cuando su hijo le anunció la llegada de las autoridades: “Papá, que a nadie le dé un infarto, allá abajo está la Seguridad del Estado”, contó. “Estábamos acostumbrados con a esa situación y pensábamos que era una detención de uno, dos días”, añadió.

En el tiempo que estuvo en la cárcel, el disidente cubano escribió dos libros. “El ser humano siempre tiene recursos para sobreponerse a las adversidades. Y escribir es una buena arma para ello. Escribía en unos papelitos, los ponía en una caja de cigarrillos y los entregaba a mi mujer”.

Sobre las condiciones de vida en la cárcel, su memoria parece no fallar: “Recibía visitas cada tres meses, comía vagina de vaca y dormía en un banco lleno de ratos. Sólo después de que me cambiaron de celda que tuve una cama”, recordó.

Aunque las liberaciones, negociadas por la iglesia católica cubana y el gobierno español, sean las más importantes desde que Raúl Castro sucedió a su hermano Fidel Castro, hace cuatro años, González se muestra desesperanzado con el futuro de Cuba. Con un humor que los años encarcelado no lograron quitarle, él habla sobre la posibilidad de volver a Cuba.

“Soy escritor y periodista, pero no soy profeta para saber lo que va a ocurrir. No creo que habrá algún cambio. Fidel es mi principal adversario y volveré a Cuba cuando la dictadura deje de ser dictadura, sea de izquierda o de derecha. Mientras, en mi pasaporte consta que tengo un permiso de salida definitivo”.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

De volta à Espanha, algumas questões práticas


Hola! Estou de volta a Madri. Enquanto coloco a minha cabeça no lugar para contar a vocês tudo que vivi em oito dias no Marrocos, tratarei neste post de alguns assuntos que muitas pessoas vêm me perguntando: como conseguir a bolsa da Fundación Carolina (FC), quais são os benefícios e como é o meu mestrado.

As inscrições já estão abertas no site da Fundação e vão até 6 de março. A FC é uma instituição público-privada que concede bolsas para estudantes de países da comunidade ibero-americana. A oferta é para várias áreas e vai desde curso de espanhol, especialização até doutorado.

No momento da inscrição você preenche seus dados, descreve sua trajetória acadêmica e profissional e, ao final, relata seus objetivos a médio e longo prazo e suas principais conquistas. As informações são analisadas pela universidade, que faz o primeiro filtro dos candidatos que se encaixam no perfil desejado.

Na sequência, a FC convoca os pré-selecionados para uma entrevista em espanhol que pode ser feita no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Os entrevistadores fazem a mesma rodada de entrevistas em outros países.

Para o meu curso tinha três vagas. Além de mim foram aprovadas uma colombiana e uma venezuelana. A FC compra a passagem de ida e volta e nos dá uma bolsa mensal, que é o suficiente para cobrir todas as despesas e ainda sobra para viajar.

Meu mestrado
O meu é o Máster Oficial en Periodismo El Mundo. Como é um “máster oficial”, aqui na Espanha eu poderia dar sequência a um doutorado, isto é, tem status de mestrado.

O curso é uma parceria da Unidad Editorial (EU) com a Universidad San Pablo. A UE é um grupo de mídia que tem, além do El Mundo como principal veículo – o segundo jornal mais lido na Espanha, depois do El País –, os jornais Marca e Expansión, sites, revistas, rádio e TV.

O curso é puxado, bem prático, como se fosse um trainee de longa duração. O objetivo é formar um jornalista “total”, capaz de atuar em diferentes mídias. Tenho aulas de segunda a sexta, de 10h30 às 18h30, sendo seis meses de teoria e seis meses de experiência profissional nos veículos de comunicação da Unidad Editorial.

No meu caso, como sou bolsista da FC, só me permitem fazer três meses de prática. Por isso, concluirei o mestrado em julho e os demais alunos terminam em outubro.

No site da FC tem a lista de todos os mestrados em jornalismo que a instituição cobre. Muitos me despertaram interesse. Vale a pena dar uma navegada no site: http://www.fundacioncarolina.es/

A Fundación Carolina
A FC é uma instituição seríssima, que dá total apoio aos estudantes. Nos meus primeiros dias de Madri já tive uma jornada de bolsistas, com abertura do diretor, que insistiu no nosso "papel de embaixador" e "compromisso com a excelência".

O principal objetivo da Fundação é que multipliquemos no nosso país tudo que aprendemos aqui. Temos uma agenda de atividades obrigatórias e optativas, como participação em congressos, palestras e seminários, visitas guiadas a museus e a instituições espanholas.

No orkut tem uma comunidade da Fundación Carolina – que inclusive foi o que me levou a fazer parte da rede – de ex e atuais bolsistas. Fiquei sabendo da comunidade só depois de ter passado por todo o processo; poderia ter evitado muita dor de cabeça. Os membros trocam informações e dão dicas importantes. Também vale dar uma passada lá, ver o que eles têm a dizer e aproveitar para tirar dúvidas. Se preferir, sinta-se à vontade para me perguntar.

Visto
Após a aprovação pela FC, começa um longo processo de legalização de documentos, de envio de papéis para a Espanha, que incluiu também a solicitação do visto. Como não pode ser feito em Belo Horizonte, tive que ir ao Rio de Janeiro duas vezes, uma para dar entrada e a outra para buscar o visto.

É preciso providenciar documentos como certificado médico e de antecedentes criminais e o consulado pede um prazo de até um mês para entregar o visto. Mais informações na página: http://www.maec.es/Subwebs/Consulados/rio.