domingo, 30 de janeiro de 2011

Quem quer coxinha?



Outro dia estava lendo o feed de notícias do facebook e uma delas me chamou a atenção. Dizia assim: “não sabia que ficaria tão feliz em comer uma coxinha”. A autora da frase, a Maria Fernanda, é uma brasileira que mora em Madri há quase dois anos. Dei total razão a ela e minha boca encheu de água.

Ah se eu pudesse dar uma garfada no angu da minha avó, na feijoada de domingo, no bolo de brigadeiro da Edna e uma colherada em um caldo de mandioca; nesse frio então, cairia muito bem.

É claro que estando em um lugar diferente, deve-se experimentar a gastronomia local. Já já prometo postar um texto sobre o que há de melhor na comida espanhola. Mas, de vez em quando, não tem como resistir. E aqui existem lugares específicos para os brasileiros que querem matar a saudade.

Um deles é o Trigo de Oro, pastelaria e cafeteria da Kênia, a mulher que me hospedou em sua casa no meu primeiro mês de Madri. O endereço da loja combina muito bem com o que se propõe: fica na Avenida Paseo de las Delicias.

Tem de tudo: pastel, brigadeiro, pão de queijo, suspiro, salgadinhos, bombom Garoto, guaraná Antártica e brasileiros apaixonados. Sempre que vou lá esbarro em um namorando as coxinhas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Víctima de la censura cubana


*Caro leitor, escrevi o texto abaixo para o meu mestrado, por isso está em espanhol.

Siete años y cuatro meses. Ese fue el tiempo que Ricardo González permaneció en la cárcel en Cuba por ejercer el periodismo en un país donde la censura a los medios de comunicación es una de sus principales marcas. Desde que llegó a España, en julio de 2010, González respira más tranquilo y puede retomar el oficio, pero de esta vez, contando su propia historia. El jueves pasado fue el turno de los alumnos del máster en Periodismo EL MUNDO de escuchar las experiencias del disidente político y corresponsal de Reporteros sin Fronteras, en una conferencia realizada en la sede de la Unidad Editorial.

González logró la libertad el 12 de julio de 2010. El día siguiente embarcó con su familia y siete prisioneros políticos cubanos más a España. Entre ellos, cinco periodistas. Todos cumpliendo la condición impuesta: “No quería salir de Cuba, pero fue la única forma para librarme del cárcel. El exilio a cambio de la libertad”, dijo.

Nacido en La Habana, González era presidente de la sociedad Manuel Márquez Sterling, una organización de periodistas clandestina, y dirigía la publicación De Cuba, la primera revista independiente publicada después de la instauración del régimen castrista. “Todo consistía en un teléfono, un bolígrafo y un papel. Hacíamos periodismo bajo a cualquier circunstancia. Siempre se puede informar, pase lo que pase, ocurra lo que ocurra. Los medios materiales no son lo más importante para  ejercer el oficio”, defendió.

El periodista fue arrestado en marzo de 2003, junto a 27 colegas. Con 60 años de edad, casado y padre de dos hijos, fue condenado a cadena perpetua por actos contra la independencia y la integridad territorial del Estado. Él recuerda con mucha precisión cuando su hijo le anunció la llegada de las autoridades: “Papá, que a nadie le dé un infarto, allá abajo está la Seguridad del Estado”, contó. “Estábamos acostumbrados con a esa situación y pensábamos que era una detención de uno, dos días”, añadió.

En el tiempo que estuvo en la cárcel, el disidente cubano escribió dos libros. “El ser humano siempre tiene recursos para sobreponerse a las adversidades. Y escribir es una buena arma para ello. Escribía en unos papelitos, los ponía en una caja de cigarrillos y los entregaba a mi mujer”.

Sobre las condiciones de vida en la cárcel, su memoria parece no fallar: “Recibía visitas cada tres meses, comía vagina de vaca y dormía en un banco lleno de ratos. Sólo después de que me cambiaron de celda que tuve una cama”, recordó.

Aunque las liberaciones, negociadas por la iglesia católica cubana y el gobierno español, sean las más importantes desde que Raúl Castro sucedió a su hermano Fidel Castro, hace cuatro años, González se muestra desesperanzado con el futuro de Cuba. Con un humor que los años encarcelado no lograron quitarle, él habla sobre la posibilidad de volver a Cuba.

“Soy escritor y periodista, pero no soy profeta para saber lo que va a ocurrir. No creo que habrá algún cambio. Fidel es mi principal adversario y volveré a Cuba cuando la dictadura deje de ser dictadura, sea de izquierda o de derecha. Mientras, en mi pasaporte consta que tengo un permiso de salida definitivo”.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

De volta à Espanha, algumas questões práticas


Hola! Estou de volta a Madri. Enquanto coloco a minha cabeça no lugar para contar a vocês tudo que vivi em oito dias no Marrocos, tratarei neste post de alguns assuntos que muitas pessoas vêm me perguntando: como conseguir a bolsa da Fundación Carolina (FC), quais são os benefícios e como é o meu mestrado.

As inscrições já estão abertas no site da Fundação e vão até 6 de março. A FC é uma instituição público-privada que concede bolsas para estudantes de países da comunidade ibero-americana. A oferta é para várias áreas e vai desde curso de espanhol, especialização até doutorado.

No momento da inscrição você preenche seus dados, descreve sua trajetória acadêmica e profissional e, ao final, relata seus objetivos a médio e longo prazo e suas principais conquistas. As informações são analisadas pela universidade, que faz o primeiro filtro dos candidatos que se encaixam no perfil desejado.

Na sequência, a FC convoca os pré-selecionados para uma entrevista em espanhol que pode ser feita no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Os entrevistadores fazem a mesma rodada de entrevistas em outros países.

Para o meu curso tinha três vagas. Além de mim foram aprovadas uma colombiana e uma venezuelana. A FC compra a passagem de ida e volta e nos dá uma bolsa mensal, que é o suficiente para cobrir todas as despesas e ainda sobra para viajar.

Meu mestrado
O meu é o Máster Oficial en Periodismo El Mundo. Como é um “máster oficial”, aqui na Espanha eu poderia dar sequência a um doutorado, isto é, tem status de mestrado.

O curso é uma parceria da Unidad Editorial (EU) com a Universidad San Pablo. A UE é um grupo de mídia que tem, além do El Mundo como principal veículo – o segundo jornal mais lido na Espanha, depois do El País –, os jornais Marca e Expansión, sites, revistas, rádio e TV.

O curso é puxado, bem prático, como se fosse um trainee de longa duração. O objetivo é formar um jornalista “total”, capaz de atuar em diferentes mídias. Tenho aulas de segunda a sexta, de 10h30 às 18h30, sendo seis meses de teoria e seis meses de experiência profissional nos veículos de comunicação da Unidad Editorial.

No meu caso, como sou bolsista da FC, só me permitem fazer três meses de prática. Por isso, concluirei o mestrado em julho e os demais alunos terminam em outubro.

No site da FC tem a lista de todos os mestrados em jornalismo que a instituição cobre. Muitos me despertaram interesse. Vale a pena dar uma navegada no site: http://www.fundacioncarolina.es/

A Fundación Carolina
A FC é uma instituição seríssima, que dá total apoio aos estudantes. Nos meus primeiros dias de Madri já tive uma jornada de bolsistas, com abertura do diretor, que insistiu no nosso "papel de embaixador" e "compromisso com a excelência".

O principal objetivo da Fundação é que multipliquemos no nosso país tudo que aprendemos aqui. Temos uma agenda de atividades obrigatórias e optativas, como participação em congressos, palestras e seminários, visitas guiadas a museus e a instituições espanholas.

No orkut tem uma comunidade da Fundación Carolina – que inclusive foi o que me levou a fazer parte da rede – de ex e atuais bolsistas. Fiquei sabendo da comunidade só depois de ter passado por todo o processo; poderia ter evitado muita dor de cabeça. Os membros trocam informações e dão dicas importantes. Também vale dar uma passada lá, ver o que eles têm a dizer e aproveitar para tirar dúvidas. Se preferir, sinta-se à vontade para me perguntar.

Visto
Após a aprovação pela FC, começa um longo processo de legalização de documentos, de envio de papéis para a Espanha, que incluiu também a solicitação do visto. Como não pode ser feito em Belo Horizonte, tive que ir ao Rio de Janeiro duas vezes, uma para dar entrada e a outra para buscar o visto.

É preciso providenciar documentos como certificado médico e de antecedentes criminais e o consulado pede um prazo de até um mês para entregar o visto. Mais informações na página: http://www.maec.es/Subwebs/Consulados/rio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Na terra onde o sol se põe


Salaam leitor. Saí da Espanha para passar oito dias no Marrocos, que em berbere significa "terra onde o sol se põe". Agora estou em Marrakech, uma das cidades mais visitadas do país.

Também faz parte do roteiro Zagora, porta de entrada para o deserto do Saara, e Quarzazate, onde está a Kasba de Taourirt, centro cinematográfico do país. Filmes como Gladiador e Babel foram gravados na região.

Ficarei alguns dias sem atualizar o blog, mas prometo contar as minhas experiências logo depois.

Até o próximo post!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Um ano para sonhar


Um artista de rua, sentado na calçada entre a Ópera e o Palácio Real, cantava, na companhia de seu violão, “Imagine all the people (...)”. Era 31 de dezembro, às 23h30, e milhares de pessoas concentravam-se no centro histórico de Madri para celebrar a virada de mais um ano.

A multidão reunia-se em subgrupos. Só do meu lado tinha dois de brasileiros – um de mochileiros e outro de uma família também de Minas. Muitos na expectativa de experimentar uma das importantes tradições da Espanha: comer doze uvas no ritmo das batidas do relógio da Puerta del Sol. Outros aproveitaram a nochevieja – como é chamada a noite de reveillon aqui – para garantir mais um dia de renda.

Dezenas de chineses forneceram o álcool ao público. Uma estátua-viva, fantasiada de soldado, tentava chamar atenção das pessoas que caminhavam às pressas para conseguir um lugar na Puerta del Sol. Os seguranças revistavam bolsos e jaquetas para garantir a segurança da festa. O cara da pizzaria servia os pedaços como se estivesse apertando botão. A balconista da loja que fica aberta 24 horas nos atendia como se fosse uma noite qualquer.

Enquanto isso, de uma ponta a outra da Puerta del Sol, as pessoas formavam um rio de cabeças. Perucas, chapéus de todas as cores e até gorros de Papai Noel. Eu e o chinês ao meu lado, que abria um sorriso de orelha a orelha a cada minuto que ficava para trás, não tirávamos os olhos dos ponteiros do relógio. Se não fosse assim, não saberíamos o momento da virada. Era tanta gente que não consegui escutar o esperado som das "campanadas", apesar de no dia seguinte um senhor ter me confirmado que assistiu a passagem do ano pela televisão e que elas realmente aconteceram.

Também não vi ninguém comendo uvas. Uma espuma de champagne aqui, outra ali, taças erguidas, copos de cerveja e só uma mulher com um cacho de uva nas mãos. Perguntei para o mesmo senhor sobre o costume e ele me respondeu, com cara de quem queria puxar a minha orelha: “Você também estava no meio de estrangeiros. Todas as famílias espanholas comem as uvas”, disse.

Logo depois da meia-noite, as pessoas começaram a tomar outro rumo. Uns pagaram 120 euros para jantar no Café do Oriente, outros 75 para ir à Joy, boate mais próxima da Puerta del Sol. O homem que trazia a trilha de John Lennon foi o único que permaneceu onde estava. Continuava cantando a mesma música: "You may say i'm a dreamer. But I'm not the only one. I hope some day. You'll join us. And the world will be as one (...)".

Não sei onde seus pensamentos o levavam, mas independentemente das campanadas que nem ele e nem eu ouvimos e das uvas que não comemos, o cantor narrava o que teve de mais significativo na noite que passou. Pessoas de distintas geografias “living for today”, “sharing all the world”.

Uvas e campanadas
O ritual surgiu na capital espanhola, em 1882, quando um grupo de madrileños, impossibilitados de festejarem a nochevieja por um veto do prefeito, decidiu ironizar o costume da burguesia que tomava uvas e champagne em suas casas. Eles transferirem o ritual para a Puerta del Sol e o fizeram ao som do relógio, em vez de o conforto de quatro paredes.

Com a repercussão da mídia, que publicou artigos intitulados “As uvas milagrosas”, o costume foi disseminado para outras cidades da Espanha e países, ganhando adeptos do mundo inteiro. Em 1909, agricultores de Murcia e Alicante, querendo dar saída ao excedente de uva, deram o impulso definitivo para a popularização do ritual, consolidando a tradição.

Antigamente, a Puerta del Sol ficava cheia de soldados que não tinham permissão para ir à casa festejar. Hoje, é ocupada por turistas, imigrantes e madrileños que, no lugar de fardas, dão outro visual à passagem de ano.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O melhor presente


Desde que Madri foi vestida com quatro milhões de luzes ainda no início de dezembro que eu vinha buscando outro sentido para o natal, já que este ano estaria longe de casa e a energia é, sem dúvida, diferente.

Bolas de cristal, arranjos de flor e serpentinas, uma árvore de 30 metros na Puerta del Sol, um mercado com artefatos natalinos na Plaza Mayor e nada me convencia.

Até encontrar – desviando de um monte de sombrinhas de turistas no centro histórico da cidade – o que melhor simbolizaria o espírito de natal nessa minha jornada que hoje completa dois meses e meio.

O brilho da cidade vinha dos olhos de uma menina. Encantada com a bolha de sabão feita por um pedinte de rua, ela olhava tudo aquilo como se estivesse abrindo o embrulho mais bonito.

Sua mãe lhe deu uma moeda, ela colocou na caixinha do senhor e foi dividir a alegria com outras crianças no carrossel. Ela sorria.

Para o próximo ano e todos os outros que virão, desejo a você - leitor, amigo, pessoa querida - o melhor presente.





Navidad

Aqui, o natal também começa com a confraternização do dia 24, chamada de Nochebuena, só que se estende até o dia dos Reis Magos, em 6 de janeiro. As crianças assistem à cavalgada dos reis e, à noite, abrem os presentes.

Este ano, a abertura do Natal foi celebrada na Puerta del Sol, no dia 17 de dezembro, com a leitura de um conto premiado em um concurso infantil das escolas de Madri. Logo depois, anjos dançaram entre o céu e a terra em um espetáculo de imagens, canto e efeitos de luz.

A iluminação da cidade foi idealizada por alguns dos principais modistas, arquitetos e desenhistas espanhóis, que se preocuparam, além da estética, com a sustentabilidade do show de luzes. As lâmpadas, de baixo consumo, permitiram reduzir pela metade as emissões de dióxido de carbono em comparação com o ano passado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O futebol é nosso


“Buenas noches. Bienvienidos al Santiago Bernabeu, al juego de Real Madrid y Sevilla”. Foi assim que o locutor do estádio deu as boas-vindas às mais de 40 mil pessoas que foram assistir ao 16° jogo do campeonato espanhol, no domingo passado, 19 de dezembro. Os ponteiros do relógio marcaram 21h e a voz do locutor foi substituída por um timbre clássico. As várias caixas de som do estádio eram tão potentes que se podia escutar de longe o hino do Real Madrid, interpretado pelo cantor José Aguilar. Talvez, quem estivesse passando pelas redondezas pensaria que se tratava de um concerto e não de um jogo de futebol.

Os atletas entraram para o campo no compasso da música de abertura do jogo. Enquanto ocupavam o gramado, a torcida aplaudia os jogadores e um vídeo foi exibido no telão com imagens das principais jogadas de craques como Zidane e Ronaldo. A mesma voz que deu as boas-vindas anunciou a escalada dos times.

A partida começou fria, sem grandes emoções. E foi assim até o final, mesmo com um gol do Di Maria, do Real Madrid. Fria também era a torcida que só se manifestou nos primeiros cinco minutos com uma falta marcada pelo juiz. Escutavam-se assovios, murmúrios. Algumas vezes, ouvia-se hijo de la puta. Só na hora da bola na rede que 50% do estádio assumiu o coro, acompanhando a tímida torcida do Real Madrid. De pé, cantaram: “Puta Sevilla, puta Sevilla...”. Logo depois: “Hala, Madrid, hala, Madrid”. Ninguém se abraçou ou deu as mãos para comemorar o gol. Repetiram as músicas umas quatro vezes e se calaram. Voltaram-se os murmúrios e assovios.

Quem mais vibrava no campo era um menininho espanhol que estava atrás de mim. Com cachecol e gorro do Real Madrid, o garoto de mais ou menos 7 anos comentava todas as jogadas e tentava entusiasmar o time: “Vamo, vamo, vamo...”. Enquanto isso, outro homem, ao meu lado, parecia não gostar do desempenho da equipe. Apesar de não entender o que ele falava (dizia um monte de coisas emboladas e aos berros, era daqueles que acha que os jogadores escutam tudo o que diz), fazia caras de insatisfação e gestos feios com as mãos.

As diferenças entre assistir um jogo no Bernabéu e no Mineirão (vou me ater ao estádio de Minas, que é o que eu frequento desde criança) são percebidas logo no trajeto. O metrô – transporte público mais usado para ir ao campo, tanto pelos turistas, como pelos madrilenhos – estava bem mais cheio que o habitual. Sabia-se que tinha um evento pelas camisas do Real Madrid que desfilavam na estação, mas não pelo comportamento dos torcedores. Eles não manifestavam a agitação pré-jogo como se vê no Brasil que começa desde a saída de casa, o esquenta nos bares e é acompanhada por cantorias e buzinaço pela cidade.

As principais ruas de acesso ao estádio estavam movimentadas. Mas, não havia empurra-empurra, filas, gente correndo de um lado a outro, som alto no carro, churrasquinho, grupos de torcedores cada um puxando uma música diferente do time e pessoas desconhecidas se abraçando. Tampouco sujeira no chão, confusão e brigas. Com muita tranquilidade, o público passava pelos vários portões do estágio como se estivesse em um teatro. Não é à toa que a arquibancada e a geral do Bernabéu recebem o nome de anfiteatros. Tem assento marcado e todo mundo respeita o seu.

Entrei no estádio faltando meia hora para começar o jogo e ainda estava vazio. Sem bandeirão e bandeirinha. Sem fumaça e fogo. Sem torcida esquentando a garganta. Um complexo de cair o queixo. Com holofotes em todos os cantos. Arrepiei-me várias vezes por estar ali, no estádio do Real Madrid e ouvindo a música da Copa do Mundo que tocou antes do jogo e na hora do intervalo. Tudo novo, tecnologia de ponta, em perfeita ordem. Mas sem calor de gente – aquilo que as pessoas dizem que os brasileiros têm, sabe como é?

Minutos foram suficientes para que as quase 40 mil pessoas assumissem seus postos no estádio. No Mineirão, isso jamais seria possível. Os torcedores ficariam agarrados nos portões. É por isso que uma ida ao estádio de Minas – acredito que em muitos do Brasil também ocorre o mesmo – tem que ser muito bem planejada. Leva horas. Já temos que sair de casa pensando na fila, no trânsito, na rota do time adversário, no ônibus que pode parar devido à confusão dos torcedores que vão batucando e cantando por todo o trajeto ou quebrando tudo que vê pela frente quando os ânimos se alteram ou quando um cruzeirense esbarra com um atleticano.

Apesar da paixão do brasileiro pelo futebol, é muito difícil um jogo de início de campeonato encher um estádio como foi o de ontem. O Bernabéu estava cheio, mesmo depois de o Real Madrid ter tomado de cinco do Barcelona. Mas não se sentia o fenômeno de massa visto em um jogo no Brasil. A metade de brasileiros em um campo de futebol é capaz de fazer mais barulho que as milhares de pessoas que marcaram presença neste domingo. A bagunça também é desproporcional. Vinte mil brasileiros fazem uma zona inimaginável para 40 mil espanhóis.

No estádio a organização é impecável. A segurança, nem se fala. Onde não tem violência não precisa ter pastor-alemão no meio do campo. Vi poucos policiais e eles passavam quase despercebidos. Não deixam pistolas e cassetetes à vista, e nem tem por quê. Intimidar torcedores civilizados não faz sentido. Se misturavam com os outros funcionários do estádio, vestidos com coletes verdes, bem verdes, para mostrar que estão ali à sua disposição. Eles tiram suas dúvidas e te ajudam a se localizar em um espaço que comporta 80 mil espectadores.

Para ir assistir ao Real Madrid no Bernabéu tem que estar disposto a gastar. Muitos apaixonados pelo futebol não tem condições de ir ao jogo, ainda mais em tempos de crise – só em Madri, mais de 16% da população está desempregada. Para uma partida com o Sevilla, 11º colocado no campeonato, os ingressos variaram entre 65 a 120 euros. A comida também é cara. O tropeiro dos espanhóis é um bocadillo de tortilla (pão com recheio de ovo e batata) que custa 4,5 euros, quase dez reais.

Paguei a entrada mais barata, o que me permitiu sentar no alto do estádio. No alto mesmo, muito mais do que no Morumbi. Via apenas pontinhos no campo, quase não identifiquei os jogadores – tudo bem que não sei qual a cor da chuteira do Luis Fabiano e nem o tamanho do topete do Cristiano Ronaldo.

A distância entre meu assento e o campo fez a dinâmica do jogo parecer mais lenta, definida muito bem pelo meu irmão: "É a mesma impressão de quando se vê um carro passando bem longe em uma estrada e parece estar devagar, enquanto um carro mais próximo, na mesma velocidade, parece se deslocar mais rapidamente", disse. Tudo isso contribuiu para que o jogo não fosse tão vibrante. Nas palavras de uma amiga venezuelana, um pouco aburrido (chato).

Para mim, longe de ser chato. Estava na minha lista de coisas que não podia deixar de fazer em Madri e valeu a pena. Hoje, no entanto, me atrevo a dizer, pedindo licença aos campeões do mundo e que dão exemplo de organização, que o Brasil é realmente muito mais que futebol. Mas futebol é Brasil.